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sexta-feira, 5 de julho de 2013

Somos todos nobres… e servos!

Somos todos nobres… e servos!

A matemática tem seus raciocínios curiosos e utilidades, por vezes, desconhecidas, porém, muito práticas. Neste caso, trata-se de provar que todos descendemos de D. Afonso Henriques ou de Carlos Magno ou de Maomé... 

Somos todos nobres… e servos!

Eu descendo de D. Afonso Henriques. O leitor também. E também de qualquer servo da gleba do séc. XII. Todos os europeus descendem de Carlos Magno e de Maomé. E todos os seres humanos vivos descendem de Confúcio ou Nefertiti. E também de qualquer escravo do antigo Egipto. São as surpresas da matemática da genealogia.
Por Jorge Buescu



Muito prazer, caro leitor. Embora não nos conheçamos pessoalmente, somos primos – na pior das hipóteses em 34º grau. E ambos temos uma linhagem altamente aristocrática: descendemos em linha directa da casa real da Fundação da nacionalidade. Sim: D. Afonso Henriques é o nosso 34º avô por via directa.

Mas, a nossa distinção genealógica não se esgota aqui, muito pelo contrário: somos também descendentes de todas as casas reais europeias anteriores ao Séc XII, e descendemos directamente de Carlos Magno ele próprio ou do profeta Maomé. E ainda de Nefertiti ou de Confúcio.

Orgulhoso da sua ilustre e aristocrática ascendência? Já sente o seu sangue mais azul, agora que tem a certeza da sua ascendência altamente aristocrática? Então considere as seguintes afirmações, também elas verdadeiras. Não há rigorosamente nada de especial consigo ou comigo. É uma inevitabilidade matemática: todos os portugueses vivos em 2004 descendem directamente de D. Afonso Henriques. Isto é verdade para mim, para o leitor ou para um perigoso marginal preso por tráfico de droga.

Muito pior: não só não há nada de especial em relação a nós enquanto descendentes como não há nada de especial com D. Afonso Henriques enquanto ascendente. Isto é: qualquer português hoje vivo, em particular um leitor deste artigo, é descendente não apenas de D. Afonso Henriques como de qualquer outro português vivo no séc. XII cuja linha de descendência não se tenha extinguido. Portanto, caro leitor, também há más notícias: além da nossa linhagem real, somos todos descendentes de todos os miseráveis servos da gleba do séc. XII. Continua orgulhoso?

Pior ainda: o mesmo argumento mostra que qualquer europeu hoje vivo é descendente directo de Carlos Magno, Carlos Mardel, Clóvis ou mesmo Maomé. Como, na verdade, também de qualquer outro europeu vivo à data destes, cuja linha de descendência não se tenha entretanto extinguido. Este mesmo argumento à escala mundial mostra que todos os seres humanos hoje vivos são descendentes de Confúcio ou Nefertiti.

Se isto lhe parece estranho, considere o seguinte pensamento arrepiante, quase inacreditável. Dentro de mil e quinhentos anos, das duas uma: ou a sua linha de descendência se extinguiu ou … todos os seres humanos nessa altura vivos serão seus descendentes! O leitor terá então literalmente dezenas de milhar de milhões de netos (já imaginou o que seria o Natal em Família?).

A explicação de todos estes factos bizarros, à primeira vista quase inacreditáveis, está em recentes resultados matemáticos relativos à Matemática das genealogias. No entanto, a razão matemática de fundo é muito simples e básica, sendo perfeitamente compreensível por qualquer aluno do Secundário: o crescimento exponencial do número de ascendentes.

Comecemos por uma observação indiscutível: todos nós temos um pai e uma mãe – isto é, dois ascendentes de primeira geração. Significa isto portanto que temos quatro avós, oito bisavós, etc. Em geral, cada um de nós possui 2n ascendentes de geração n.

Tomemos ao acaso um cidadão português qualquer, designando-o, digamos, por FM. Façamos então o modelo mais básico possível para a ascendência de FM. Suponhamos , para simplificar, que uma geração demora em média 25 anos.

Assim, FM terá 210 = 1024 ascendente de 10ª geração (bi-tetra-tetra- avós), que viveram há 250 anos. Na 20ª geração, que corresponde ao descobrimento do Brasil, terá mais de um milhão de ascendentes (220 = 1.048.576). E terá mil milhões de Milhões de ascendentes de 30ª geração. Isto passa-se há 750 anos. O tempo de D. Afonso Henriques, digamos 1143, corresponde à 34ª geração, e a árvore genealógica de FM tem nessa altura 234 ascendentes – mais de 17 mil milhões de pessoas – ou seja, quase o triplo da actual população da terra, e superior ao número total de seres humanos que já passaram pela Terra desde o aparecimento do Homo Sapiens!

A conclusão é uma inevitabilidade matemática: a árvore genealógica de FM não é uma árvore – é um novelo. Os caminhos de FM até aos seus ascendentes de 34ª geração têm de se auto-intersectar, porque muitas das 17 mil milhões de pessoas vão coincidir. Portugal teria qualquer coisa como 1 a 2 milhões de habitantes no tempo de D. Afonso Henriques, pelo que neste caso as auto-intersecçõ es “enrolam” as árvores genealógicas com coalescências de um factor de 1000 na 34ª geração.

Qual é a probabilidade de um ascendente masculino na 34ª geração de FM ser D. Afonso Henriques? Fazendo a pergunta para um ascendente concreto, digamos o pai do pai do pai … (34 vezes por linha paterna), essa probabilidade é evidentemente baixa. Suponhamos que este 34º avô pode ser, com igual probabilidade, qualquer um dos cerca de um milhão de homens vivos em 1143. Então a probabilidade deste senhor ser D. Afonso Henriques é uma num milhão. Dito de outra forma, a probabilidade de este 34º avô de FM não ser Afonso Henriques é 0,999999

A questão é que FM não tem apenas UM 34º avô homem: tem exactamente 233. Para FM não descender de D. Afonso Henriques é necessário ( mas nem sequer suficiente; ver abaixo) que nenhum destes 233 avôs seja Afonso Henriques. Considerando independência dos acontecimentos, e como 233 = 8.589.934.592 essa probabilidade é

P= (0,99999)8.589.934.592

Ou seja, cerca de 10-3731



Não é impossível FM não ser descendente directo de D. Afonso Henriques. No entanto, isso tem probabilidade absurdamente ridícula: ocorrerá uma vez em 103731 , que é 1 seguido de 3731 zeros. Como é fácil perder a noção da ordem de grandeza destes números, pode ser útil a seguinte comparação. Esta Probabilidade é menor do que a probabilidade de ganhar 522 vezes seguidas no totoloto. Ou seja, é mais provável jogar uma a posta e ganhar o 1º prémio no Totoloto todas as semanas durante dez anos do que D. Afonso Henriques estar fora da linha de ascendência de FM!

Poderia objectar-se que este modelo simples não leva em conta diversos fenómenos, de que são exemplo mais óbvio os migratórios. É verdade: obviamente Portugal não esteve de fronteiras fechadas durante 850 anos. Por exemplo, o meu pai era romeno, pelo que metade da minha árvore genealógica em princípio nada terá que ver com D. Afonso Henriques. Parece um corte radical: metade da árvore genealógica é para esquecer.

No entanto, devido ao crescimento exponencial dos antecessores o efeito desta anomalia é apenas atrasar o fenómeno uma geração, ou seja 25 anos (como no célebre problema dos nenúfares que cobrem um lago em trinta dias e se pergunta em que dia o lago estará meio coberto - supondo que a área aumenta todos os dias para o dobro). No meu caso pessoal, posso afirmar que é mais provável ganhar o Totoloto “apenas” todas as semanas durante cinco anos do que não descender directamente de D. Afonso Henriques. Portanto, eu e o FM, somos primos, na pior das hipóteses, em 34º grau, através do nosso querido avô comum Afonso Henriques.

O mesmo argumento mostra que passar de Portugal de D. Afonso Henriques para o Mundo inteiro é feito com meia dúzia de gerações. Assim, cálculos em tudo análogos mostram que a probabilidade de um qualquer europeu não descender por via directa de Carlos Magno é da ordem de 10-15000 . É mais fácil ganhar o Totoloto todas as semanas durante 320 anos. Portanto, todos os europeus vivos descendem da maior casa real europeia, a dos Francos de Carlos Magno.

E quanto mais para trás melhor: Maomé, Clóvis… a única exigência é partir de alguém que comprovadamente tenha deixado descendência viva, isto é, cuja linha de descendência não se tenha extinguido. A escolha de Carlos Magno, ou Maomé, ou Clóvis, é irrelevante – a não ser neste aspecto. Isto significa que todos os europeus actualmente vivos são descendentes de todos os europeus vivos no séc IX cuja linha de descendência não se tenha quebrado. Quer dizer: os portugueses são tão descendentes de Afonso Henriques como de qualquer servo da gleba seu contemporâneo.

Analogamente, passar para o Mundo inteiro empurra o cálculo uma geração mais para trás. Assim, todas as pessoas no Mundo são descendentes de Confúcio ou Nefertiti. E note-se que estamos apenas a considerar ascendência directa de pais para filhos, não alargada a tios ou por afinidade!

O pequenino modelo de brincar apresentado é evidentemente muito grosseiro para ser levado cientificamente a sério. Contudo, foram recentemente publicados modelos matemáticos probabilísticos desenvolvidos pelo matemático Joseph Chang, da Universidade de Yale, que trabalham as questões mais delicadas com as ferramentas probabilísticas dos processos de Markov. O que estes modelos têm de especial é considerarem a ascendência “genealógica” a partir de dois progenitores, e não apenas por via de um progenitor, como nos modelos clássicos(Wright- Fisher).

Pode parecer estranho ao leitor que os modelos clássicos só levem em conta um progenitor, não os dois. De facto, eles são sobretudo utilizados em Genética; e, devido à enorme complexidade das questões da hereditariedade sexuada (por exemplo, o DNA de um avô pode estar totalmente ausente no neto), eles são utilizados em condições em que não existe recombinação: por exemplo, a transmissão do cromossoma Y por via paterna, ou a transmissão do DNA mitocondrial por via materna. Assim, nos modelos clássicos há apenas um progenitor que “doa” todo o material genético. É assim que se atinge, por exemplo, a “Mãe Universal” conhecida por “Eva Mitocondrial” (originadora do DNA mitocondrial que todos transportamos) .

É claro que em qualquer tipo de modelo fazem sentido perguntas como”dada uma população com n indivíduos, quantas gerações é preciso andar para trás para se encontrar um antecessor comum?”. Um tal indivíduo é conhecido como um antecessor comum (AC) da população. Por exemplo, D. Afonso Henriques é um AC da população de Portugal, e Carlos Magno é um AC da população europeia. Uma pergunta ligeiramente diferente é a de encontrar o mais recente antecessor comum (MRAC) da população. Por exemplo, D. Afonso Henriques é um antecessor comum da população portuguesa, mas com grande probabilidade haverá um AC mais recente. O mais recente de todos é o MRAC.

Em modelos de tipo clássico, uniparentais, cada elemento da população tem um antecessor na geração n. Este facto origina, como talvez o leitor já suspeite, uma enorme diferença em relação às respostas fornecidas às perguntas acima. Em modelos clássicos, uniparentais, pode mostrar-se que uma população de dimensão n, em média, tem um MRAC(“Eva mitocondrial” ) na geração 2n. Por exemplo, a “Eva Mitocondrial” da população portuguesa (se tal fizesse sentido, o que claramente é falso) teria ocorrido há 20 milhões de gerações.

Já para um modelo genealógico, biparental, a situação é radicalmente diferente. Joseph Chang mostra dois resultados fundamentais: Numa população de dimensão n “suficientemente grande”, (1) o número de gerações necessárias para atingir um MR-AC é log2 n; (2) os elementos da população na geração (contada da frente para trás) G(n) = 1,77 log2 n ou são Antecessores Comuns de toda a população, ou a sua linha se extingue.

É interessante aplicar a segunda parte deste Teorema de Chang à população portuguesa. Com n = 10.000.000, actual população de Portugal, obtemos G(n) = 41,15. Para jogarmos pelo seguro, tomemos G(n) = 42 gerações correspondentes a 1050 anos. Isto significa que, para qualquer habitante do “Portugal” de 950 d.C. se tem a seguinte dicotomia: ou a sua linha de descendência se extinguiu, ou então é um Antecessor Comum de toda a actual população portuguesa.

Ainda mais intrigante é virar o argumento ao contrário. De acordo com as projecções das Nações Unidas, a população mundial estabilizará nos 12 mil milhões a partir do ano 2200. A geração crítica G(n) correspondente ao Teorema de Chang é 59,2; digamos 60 por segurança. Ou seja: dentro de 60 gerações, ou cerca de 1500 anos, eu e o leitor pertencemos à geração G(n). A partir daí, ou a nossa linha de descendência se extinguiu, ou cada um de nós é um Antecessor Comum de toda a população mundial. Todos os seres humanos serão nossos 60ºs netos! É como se cada um de nós estivesse neste momento no vértice de uma gigantesca ampulheta genealógica.

Poderá perguntar-se: se todos comprovadamente descendemos de qualquer pessoa suficientemente distante que tenha deixado descendência, qual é o interesse da genealogia? De facto, as raízes de todos nós estão na mesma árvore. Mas cada caminho para o nosso passado comum é único; a reconstrução desse caminho - uma penosa ascenção pela nossa árvore de ascendentes, conjugada com a exploração dos descendentes do “alvo” que se pretende atingir - é já por si uma recompensa. O matemático português que nos chamou a atenção para os trabalhos de Chang, por exemplo, conhece por este processo a (ou talvez uma) sua descendência directa do profeta Maomé e de Clóvis, rei dos Francos.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Lançada versão online do Jornal Alfredo Wagner

Foi lançado em março passado a versão online do Jornal Alfredo Wagner. Inicialmente lançamos apenas para os colunistas e após definir o formato e a diagramação do site, começamos a divulgar através de facebook, twitter, orkut, etc.
A versão online surpreendeu a todos nós. Mais de quinhentos acessos em pouco tempo.
Uma das páginas mais acessadas foi a biografia de Olívio Maffei escrita pela filha dele. A entrevista feita pelo JAW com a Adriana Mariani também está entre as mais acessadas.
Pesquisando no Google por Jornal de Florianópolis, o Jornal Alfredo Wagner aparece em quinto lugar entre 131.000 resultados apresentados.
O site pode ser acessado de celular, ipad, tablet, iphone, etc.
Utilizamos nesta edição o recurso QR trata-se de um leitor de código de barras especial e de fácil utilização. Você pode baixar o leitor do site http://qrcode.kaywa.com/ Instale em seu celular e fotografe os códigos especiais apresentados nesta edição. O leitor lê o código e acessa a página com a matéria, imagem ou o video.
Curta a página do Jornal no Facebook, no Twitter, Orkut, etc.
Fazendo isso você estará divulgado as boas notícias de nosso município para o Brasil inteiro.
Cada colunista tem seu próprio email @jornalaw.com.br podendo ser contactado pelos leitores do jornal.

sábado, 31 de outubro de 2009

Genealogia: uma experiência gratificante

Francesco De Marchi - Escritor, Engenheiro Militar de Carlos V

Francesco Demarchi, sec. XVI, certamente um dos nossos antepassados.

Montar a árvore genealógica é uma das experiência mais gratificantes que eu já tive. Especialmente quando, no gráfico que se eleva a partir de alguém, se descobre muitos relacionamentos. Para muitos principiantes não é fácil, nem mesmo utilizando os programas e sites que existem para faciciltar a tarefa. Lea Beraldo, num excelente artigo, resume os principais pontos para se fazer uma árvore genealógica. Leia trechos do artigo clicando neste texto, ou, se preferir, leia o artigo completo acessando Genealogia


Como Montar sua árvore genealógica





  • Passos para montar uma árvore genealógica



  • Eis aqui um site para montar sua árvore genealógica.
    Familiaridade
    Permite a construção e a publicação online de maneira prática, fácil e rápida.


    Dicas para quem vai começar a pesquisar as suas origens


    Lea Beraldo, no site PEQUENO ROTEIRO PARA A PESQUISA dá importantes conselhos para quem deseja fazer uma pesquisa genealógica. Passo a palavra a ela:

    COMEÇANDO POR VOCÊ

    Lembre-se de que em sua certidão de nascimento estão mencionados os nomes de seus quatro avós. Na de seus pais, também vêm indicados os avós deles. Por óbvio, tendo à mão a certidão de nascimento de seu pai, por exemplo, saberá de imediato o nome de seus bisavós. E se conseguir a certidão de nascimento de seu avô paterno, nascido no Brasil, terá o nome dos avós dele, seus trisavôs. Somente com esses documentos você já terá uma árvore genealógica considerável (cinco gerações contando você).

    SUA FAMÍLIA

    Procure conversar com os parentes mais idosos e anote tudo quanto puderem contar sobre a história da família. Não menospreze nenhuma informação ou reminiscência; tome todo e qualquer dado como provável indício, que somado a outros poderá montar o quebra-cabeça da origem.
    CIDADE ONDE PRIMEIRO RESIDIRAM SEUS ANCESTRAIS IMIGRANTES

    Minha experiência pessoal diz que esta é a melhor fonte de pesquisa, principalmente nos livros de assentos de casamentos religiosos e batismos.
    A explicação lógica vem dos seguintes fatos:
    Grande parcela dos imigrantes era composta por casais jovens, com filhos pequenos e disposição para o aumento da prole, sobretudo porque, além da tendência natural à procriação em situações de isolamento, partiam do pressuposto de que quanto mais braços houvesse para o trabalho, mais fácil seria a sobrevivência da família. Guardavam, de outra sorte, uma forte religiosidade e bem por isso eram incapazes de mentir ao padre sobre a localidade em que batizados, no caso de declarações para o casamento dos jovens, ou mesmo para o batizado dos muitos filhos aqui nascidos. Lembre-se de que a Igreja Católica Apostólica Romana sempre impôs, como condição para a realização do casamento, o batismo prévio dos noivos, condição que se estende também para o batismo de seus filhos (só poderiam levar os filhos à pia batismal aqueles que fossem batizados).
    Assim, os livros das Igrejas são, com certeza, uma excelente fonte de informação, ainda que os assentos venham a indicar apenas, por exemplo, que o noivo imigrante foi batizado no "Bispado de Verona". Tal informação já delimitaria a busca às noventa e seis cidades que compõem a Província de Verona, sem contar que se esse ancestral chegou ao Brasil com mais de dezoito anos seria fácil obter no "Ufficio Di Leva" da Província de Verona, por exemplo, o certificado de cumprimento ou dispensa do serviço militar, com todos os dados sobre sua origem.
    Não se contente em obter uma certidão de casamento ou batizado. Peça uma cópia da folha do livro em que lançado o assento. Se impossível, peça para ver o livro. Graças a essa teimosia, na cópia da folha em que transcrito o batismo de uma tia avó, a primeira nascida no Brasil (em Rio Novo, MG), descobri que o verdadeiro sobrenome da família era Gaiardoni, e não Gagliardoni, como eu imaginava correto, muito menos Galhardoni, como ficou depois de lamentavelmente aportuguesado. Na cópia do assento vi, com meus próprios olhos, a assinaturinha trêmula de meu bisavô Vittorio, desenhada por mãos mais afeitas ao cabo de uma enxada do que a uma pena. Mas valeu muito a descoberta.
    RECADASTRAMENTO DURANTE A 2ª GUERRA MUNDIAL

    Caso o primeiro ancestral imigrante tenha falecido depois de 1942, também será possível obter, na Delegacia de Polícia da cidade onde estava residindo por essa época, uma cópia do termo de cadastramento que todos os estrangeiros foram chamados a fazer, e onde responderam a perguntas acerca da procedência, data de chegada ao Brasil, e nome do navio em que viajaram.
    Em um desses documentos, preenchido por minha bisavó Albina Baccagini em Mogi Guaçu (SP), consegui descobrir que ela e meu bisavô Vittorio Gaiardoni haviam chegado no Navio Colombo em outubro/novembro de 1894.
    BANCO DE DADOS DAS HOSPEDARIAS DE IMIGRANTES E DO ARQUIVO NACIONAL DO RIO DE JANEIRO

    Outra boa fonte de informações são as velhas Hospedarias de São Paulo e de Juiz de Fora (as de que tenho notícia), e o Arquivo Nacional.
    A de São Paulo transformou-se no Memorial do Imigrante e guarda todos os livros de registro dos imigrantes que por lá passaram. Há casos em que à margem do registro de entrada da família anotaram-se a cidade italiana de origem e o destino da família aqui, com o nome do fazendeiro contratante.
    A Hospedaria de Juiz de Fora (Horta Barbosa) não mais existe. Todos os livros de registro, no entanto, foram remetidos ao Arquivo Público Mineiro (Belo Horizonte), e neles é possível saber o destino da família em território mineiro.
    J á o Arquivo Nacional (Rio de Janeiro) guarda as listagens de passageiros imigrantes desembarcados naquele porto, sem muitos detalhes mais elucidativos. De todo modo, sabendo a data de chegada do navio poder-se-á obter a listagem através de pedido feito por e-mail, carta ou telefone. É sempre bom saber quem viajou com a família pesquisada.
    MICROFILMES DA IGREJA MÓRMON

    Tanto os livros de registro de chegada dos imigrantes conservados no Arquivo Nacional quanto aqueles do Memorial do Imigrante de São Paulo estão microfilmados pelos Mórmons. Basta ir a um Centro de História da Família (CHF) que funciona nessas igrejas e solicitar o microfilme do provável ano de desembarque. Com paciência, bastante tempo e vista boa será possível encontrar no microfilme a chegada da família, com os dados disponíveis, inclusive os nomes do navio e dos demais passageiros daquela viagem.
    VITÓRIA - ESPÍRITO SANTO

    Não se pode deixar de mencionar que uma grande leva de imigrantes desembarcou no porto de Vitória, Espírito Santo, principalmente os que se engajaram na pioneira expedição Tabacchi. O Arquivo Público daquele Estado, em trabalho magnífico, está resgatando os dados disponíveis e colocando "on line " para a consulta.
    ESTADOS DO SUL DO BRASIL

    Pouco sei sobre os imigrantes que se destinavam ao sul do Brasil, senão que via de regra desembarcavam no Rio de Janeiro e de lá seguiam para seus destinos em outras embarcações. Os Institutos Históricos do Paraná (IGEPAR) e do Rio Grande do Sul (INGERS) estão desenvolvendo trabalhos voltados para o resgate desses dados. Em minha página principal há vários endereços de outras páginas que tratam do tema.
    Não se pode perder de vista ainda que a grande maioria de nossos ancestrais imigrantes, quer procedente da região do Vêneto, quer da Lombardia, ou ainda da Calábria, saiu de pequenas cidades ("Comuni"), e não das Capitais. Com o passaporte expedido pelo serviço de Anagrafe do Município, o imigrante rumava de trem para Gênova (se originário do norte da Itália), ou para Nápoles (se originário do sul). Somente de um desses dois portos partia-se da Itália para o Brasil, em viagem que dificilmente durava menos do que vinte e cinco dias. Um mesmo navio, portanto, chegava a fazer seis viagens por ano.
    CARTAS AOS ARQUIVOS DE ESTADO ITALIANO
    S
    Sabendo-se, pelo menos, a região da Itália de onde veio o ancestral imigrante, é possível remeter cartas para os respectivos Arquivos de Estado daquela Região solicitando informações acerca de seu nascimento e de sua família.
    DIVISÃO POLÍTICA DA ITÁLIA

    Aqui é importante abrir parênteses para lembrar que a Itália está dividida, politicamente, em 20 REGIÕES, que por sua vez se dividem em 108 PROVÍNCIAS (semelhantes a nossos Estados), divididas estas em cidades, com estrutura parecida à de nossos Municípios, e que são denominadas "COMUNE" (singular) e "COMUNI" (plural); estas (em italiano "Comune" é masculino), em alguns casos, dividem-se ainda em "frazione", como nossos distritos.
    As capitais das Províncias têm os mesmos nomes das Províncias, como São Paulo, que é a denominação do Estado, e também da cidade em que está sediada sua Capital.
    Assim, a Região do Vêneto é composta por sete Províncias (Veneza, Verona, Padova, Vicenza, Belluno, Rovigo e Treviso), sendo que a (Província) de Verona abrange 96 cidades, entre as quais a de Verona, que é sua capital. A Província de Rovigo também está subdividida em 100 cidades, entre as quais a de Rovigo, e assim por diante.
    Sabendo-se a Província de origem do imigrante, além da carta ao Arquivo de Estado, é recomendável remeterem-se outras para os serviços de Anágrafe de todas as cidades que compõem aquela Província, e também para as suas principais Paróquias, que via de regra guardam assentos de casamentos e batismos desde o século XVI, como é o caso da cidadezinha de Trecenta, em Rovigo, de onde vieram meus bisas Tamassia/Panciera, cuja Igreja matriz conserva os livros desde 1542.
    Outro fato importante a ser lembrado é que os registros civis italianos são lavrados em repartições da Prefeitura de cada cidade ("Ufficio di Stato Civile" e "Ufficio Anagrafe"). A obrigatoriedade desses registros, instituída pelo "Regio Decreto" nº 2.062, de 15 de novembro de 1865, data de 1866. Caso o imigrante tenha nascido anteriormente (o que é muito provável), os respectivos dados só poderão ser conhecidos pela certidão de batismo na respectiva Paróquia, ou, no próprio Ufficio Anagrafe, através de dados obtidos em recenseamentos. De todo modo, o interessado sempre poderá obter no Anagrafe uma certidão chamada "Stato di Famiglia Storico", expedida com base nas fichas ("cartellini) que conservam os dados de todos os componentes do núcleo familiar. No "Comune" de Casaleone, por exemplo, obtivemos essa certidão relativa à família do avô de meu marido (Francesco Berardo). Nela constam os nomes de seus pais, com as respectivas datas de nascimento e morte, os nomes de suas irmãs, com as datas de nascimento, transferência para outras cidades e mortes, e curiosamente menciona o nome de Francesco com a data de seu nascimento no "Comune" de Angiari. O "Stato di Famiglia Storico", como se vê, é uma espécie de matrícula da família, onde são lançadas todas as intercorrências havidas com seus membros.
    Em muitos dos serviços de Anagrafe também é possível localizar a cópia do passaporte expedido por ocasião da saída do imigrante da Itália (emigração). Nesse documento constam a data de embarque para o Brasil e a cidade de destino. Na pequenina cidade de Vigasio, Província de Verona, de onde vieram meus bisavós Gaiardoni/Baccagini, pude saber, através de cópias dos passaportes lá arquivadas, que uma irmã de meu bisavô (Angela Gaiardoni) havia emigrado para o Brasil em 1892 (dois anos antes do irmão) com o marido Paolo Caprara e cinco filhos.
    Com essa informação, coloquei uma página na Internet buscando eventuais descendentes desse casal, e algum tempo depois recebi mensagem de três deles, novos parentes, que me fizeram conhecer uma enorme família, com ramificações em Espírito Santo do Pinhal, Franca, Ribeirão Preto, Casa Branca, Andradas, São Paulo e até em Ponta Grossa, Paraná, sem contar os residentes fora do Brasil. Os descendentes de Maria, filha de Angela Gaiardoni e Paolo Caprara (casada com Cristoforo Igino Archetti), entroncaram-se com centenas de famílias e deram aos habitantes de Franca, de presente, a belíssima Igreja de Nossa Senhora das Graças.
    Neste ano de 2004, graças às pesquisas que um amigo italiano (Elio Bernini) fez no Comune di Trecenta, Rovigo, consegui descobrir que a família de minha avó Stella Tamassia passou também pela cidade de São José do Rio Pardo, Estado de São Paulo, onde, no dia 08 de maio de 1907, faleceu MARIA BORTOLINI, casada com PAOLO PANZIERA. Eram os avós de minha avó, e para minha surpresa esse trisavô PAOLO voltou em definitivo para a Itália em 1910 e lá se casou novamente, vindo a falecer somente em 1930.
    Obter informações preciosas assim exigiu, repito, muito trabalho, muita perseverança, muitas madrugadas aqui na Net, além do inestimável concurso de bons e verdadeiros amigos.
    Espero que este pequeno roteiro sirva de orientação aos iniciantes, principalmente aqueles que me dirigem mensagens solicitando (verbis ): "o envio da história de minha família e a certidão de nascimento de meu trisavô fulano de tal ". Ninguém além de você ou de algum parente seu conseguirá reescrever a história de sua família.
    Boa sorte a todos! Lea Beraldo, São Paulo - Capital - dezembro/2003